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História da AIDS

Nós, os seres humanos, a espécie dominante na Terra, temos uma grande responsabilidade para com o ambiente e com os sistemas naturais do nosso planeta, assim como todos os componentes biológicos que neles estão inseridos. Mesmo porque, se não aprendemos a preservar por bem, aprenderemos então por mal.

Quando não respeitamos a natureza, ela acaba nos dando o troco, e a Síndrome da Imuno-Deficiência Adquirida (cuja a sigla é SIDA, ou em inglês AIDS) é mais um desses “feedbacks” que colhemos devido a consequente expansão da fronteira humana sobre o mundo natural.

Se voltarmos aos inícios dos anos 1980, quando os primeiros casos da doença começaram a surgir, nenhum médico, epidemiologista ou qualquer outro profissional da saúde imaginaria que o agente etiológico que causava tumores de pele, infecções respiratórias e caquexia (fraqueza extrema e elevada taxa de emagrecimento em um curto período) em jovens saudáveis sem qualquer histórico de alguma desordem clínica, seria um primo de um outro agente etiológico, que infectava macacos na África.

Desde que isolaram o vírus da AIDS em 1985 –antes disso, suspeitava-se de outros agentes biológicos como bactéria ou protozoário, e até um possível agente de natureza química - os pesquisadores já acumularam sólida base científica para explicar tanto o seu surgimento como a sua disseminação pelo globo.

Tudo começou na África (não por coincidência, o continente berço da humanidade, donde surgiu a nossa espécie), mais especificamente na porção central – onde atualmente se localizam as nações: República Democrática do Congo, Gabão e Camarões - local onde existe a Floresta do Congo, o segundo maior bioma tropical do mundo, ficando atrás apenas da Floresta Amazônica.

Identificou-se que os primeiros casos da doença ocorriam nessas porções do continente africano desde a década de 1910, no contexto que muitas selvas já eram saqueadas pelo mercantilismo, ficando à mercê da exploração ambiental, reduzindo assim os seus biomas às clareiras, monoculturas e garimpos, tais atividades sem qualquer protocolo de controle ou mitigação da consequente perturbação ambiental (lembremos que a primeira conferência da ONU que chamou atenção ao perigo da contínua exploração predatória ambiental só ocorreria ao final da década de 1970).

Assim, tais atividades fizeram com que seres humanos invadissem o ecossistema natural, entrando em contato com toda a biodiversidade existente dentro da selva: e quando se fala em biodiversidade, o termo não fica restrito à apenas vegetais e animais, mas também seres microscópios, como vírus, bactérias e protozoários circulantes (seja estes de vida livre, ou uma grande maioria presente nos hospedeiros reservatórios).

É sabido que existem mais de 40 variantes do gênero dos lentivírus que circulam em primatas não-humanos africanos (os chamados “Velhos Macacos”, já que o continente é o berço dos primatas, incluindo assim a nossa espécie), e um desses vírus é o que se reconhece como SIV (sigla em inglês para Vírus da Imuno-Deficiência Símia): a principal teoria é que humanos entraram em contato com macacos infectados pelo SIV, provavelmente por contato sanguíneo devido a caça com armas brancas, ou ainda ingestão de carne crua ou malcozida, fazendo assim com que o vírus saísse de sua circulação endêmica e natural, alcançando (e se adaptando) à hospedeiros humanos.

Vírus sofrem mutação em taxas muito maiores do que outros seres, em especial o grupo dos retro-vírus (que possuem como molécula replicadora o RNA, este que se transforma em DNA a partir da enzima transcripitase reversa), possibilitando que estes tenham uma grande capacidade de adaptação para infectar diferentes organismos.

Considere a proximidade genômica que nós temos com os Velhos Macacos (como já dito, lá é o berço da humanidade) e o caldo se forma, dando origem à um vírus especifico que infecta humanos: o HIV (sigla em inglês para Vírus da Imuno-Deficiência Humana).

Em epidemiologia, tal fenômeno se chama “spiilover” (palavra inglês para transbordamento), e não fica restrito apenas para o vírus HIV, mas muitos outros agentes patológicos humanos de natureza zoonótica (ou seja, que infectam animais), como outros famosos vírus: o Zika, transmitido por vetores (mosquitos), cujo o nome corresponde a floresta de Zika, em Uganda, onde foi isolado a primeira vez (em macacos); e o Ebola, também infectando primatas não-humanos como chimpanzés e gorilas.

Pulando para a década de 1950, este período marca um dos mais importantes depois do surgimento do vírus, já que é quando se inicia a sua disseminação: foi no pós-guerra, quando o mundo se reconfigurou em um novo ”cenário mundial” - no qual se insere a Guerra Fria entre duas superpotências, e esta guerra não sendo restrita apenas à corrida armamentista, mas também corrida tecnológica e, principalmente, territorial, pelo respectivo controle dos recursos naturais – que emergem novas necessidades económicas e mercadológicas para este “admirável novo mundo”.

Foi com esse início da globalização e o aumento das viagens de avião, o que reduziu significativamente as fronteiras entre as nações do planeta, que o vírus começou a sua conquista pandêmica, resultando nos pavorosos anos 1980, quando a doença ainda era uma sentença de morte (não apenas física, mas também social).

O vírus HIV, ao se adaptar aos seres humanos, concentrou a sua carga virótica em fluidos corporais como plasma, sêmen e secreções vaginais, fazendo com que sua estratégia de infecção fosse principalmente por vias sexuais, além de transfusão sanguínea (e transplantes de órgãos), utilização de hemoderivados por hemofílicos, compartilhamento de seringas e a transmissão de mãe para filho (durante o parto ou por amamentação).

Todavia, o “pulo do gato” deste vírus foi o seu longo período para manifestar sintomatologia observável nos infectados, o chamado horizonte clínico da doença: isso fez com que muitos portadores desconhecessem o seu estado e propagassem o HIV, já que a infecção pelo vírus em um primeiro contato (a chamada infecção aguda) dura apenas algumas semanas e pode ser confundida com uma simples gripe ou virose.

Após a infecção aguda o vírus fica “adormecido” no hospedeiro até as primeiras manifestações da AIDS, usualmente entre cinco a dez anos, janela essa que o portador infecta novos hospedeiros susceptíveis - todavia o termo “adormecido” para o HIV seja incorreto, já que desde a infecção aguda o processo de degeneração das células de defesa do hospedeiro (os Linfócitos T-CD4+) já se inicia: a AIDS é a síndrome resultante quando a contagem de células de defesa está muito baixa, dando início as infecções oportunistas associadas.

Com a chegada dos anos 1990, e com cada vez mais pesquisas sendo realizadas, assim como melhores métodos de testagem e aconselhamento, e principalmente com o surgimento dos primeiros antirretrovirais, o quadro da AIDS no mundo começou a mudar radicalmente, se transformando de uma doença infecciosa altamente letal para uma doença crônica controlável, com pessoas ganhando significativa sobrevida com o uso do “coquetel” (como eram chamados os primeiros retrovirais, já que compunham um grande número de pílulas e comprimidos, com diferentes princípios farmacológicos).

Passados aproximadamente 40 anos desde as primeiras notificações e o isolamento do vírus, atualmente já se tem novas metodologias e recomendações para os portadores, estas bem diferentes das dos anos 1980.

Por exemplo: sabe-se que se você fizer sexo sem proteção com uma pessoa que tem conhecimento de seu respectivo estado sorológico, negativo ou positivo - ou seja: mesmo uma pessoa que tem conhecimento que é HIV positiva (e que não seja nenhuma psicopata carimbadora!) – a chance de infecção é teoricamente nula, já que se esta pessoa estiver tomando os antirretrovirais corretamente, a carga virótica é indetectável, impossibilitando a ocorrência da infecção.

Por isso é tão importante fazer o exame, caso a pessoa tenha se exposto a uma situação de risco.

Também nos dias de hoje existem os chamados métodos profiláticos, tanto para a pré-exposição (conhecida pela sigla PrEP, por exemplo para casais soro-discordantes) como para a pós-exposição (conhecida pela sigla PEP, quando estamos bêbados e fazemos coisas que podemos nos arrepender!), prevenindo assim que o indivíduo se contamine, desde que procure a assistência em até 72 horas (no caso de uma PEP).

Apesar de deixar de ser uma sentença de morte, o HIV ainda é um desafio para as políticas de saúde pública, principalmente entre as populações mais vulneráveis: homens que fazem sexo com homens; transexuais masculinos; profissionais do sexo; usuários de drogas injetáveis (e também não-injetáveis, já que muitos usuários de crack moradores de rua estão vulneráveis a fatores de risco, como sexo sem proteção).

Também existe a questão da resistência aos antirretrovirais, ao mesmo tempo que estes remédios ainda produzem efeitos colaterais como enjoos, náuseas e lipodistrofia (claro, estes nada comparado aos pesados efeitos do coquetel dos anos 1990).

Existe ainda o custo da infecção, seja pelo tratamento e os serviços de saúde demandados, seja ainda pela debilitação que a doença pode provocar, impedindo que o indivíduo realize sua atividade profissional, prejudicando a geração de riqueza (tanto para ele, como para o país).
Por estes motivos que a prevenção ainda é o melhor caminho quando se trata do vírus HIV.

E claro, evitar a contínua perturbação predatória do ambiente natural: nunca saberemos quando pode surgir uma nova AIDS – ou alguma outra pandemia muito mais degenerativa e mortal.

PS: só como efeito de curiosidade, o SIV não causa AIDS nos Velhos Macacos, já que estes vírus circulam nessas populações de primatas não-humanos há mais de 11.0000; entretanto cientistas verificaram que ao injetar partículas de SIV em macacos asiáticos, eles desenvolvem AIDS, pois estas populações não coevoluiram com estes vírus, tal qual os macacos africanos. A natureza sabe o que faz.

Jello Aska

Gosta tanto de sexo na mesma proporção que tem paranóias com DST's.

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